A fraude digital deixou de ser um “incidente” isolado: é um fenómeno sistémico que afeta receitas, reputação e a capacidade de operar em mercados regulados. A Gartner estima que, em média, as empresas perdem 5% das suas receitas com fraude e que cada caso pode ultrapassar 1,6 milhões de dólares em danos financeiros. Soma-se a isso a pressão regulatória: em 2024, os reguladores dos EUA aplicaram 4,3 mil milhões de dólares em sanções, equivalentes a 95% das penalizações financeiras globais registadas.
Neste contexto, a fraude digital em 2026 não se trata apenas de “detetar mais”, mas de reduzir exposição e demonstrar diligência contínua (perante auditorias, inspeções e comités de risco). A vantagem competitiva passa por antecipar a evolução do risco e adaptar os controlos em tempo real.
1) O novo terreno de jogo: fraude mais escalável, AML mais exigente
Em 2026 veremos uma convergência clara: a fraude alimenta-se da identidade (real ou sintética), e o compliance AML/KYC necessita de sinais de identidade e comportamento para diferenciar atividade legítima de padrões criminosos. A Gartner alerta que os branqueadores de capitais estão a “ganhar” a batalha do crime financeiro e projeta que os fluxos financeiros ilícitos possam atingir entre 4,5 e 6 biliões de dólares até 2030. Esta pressão leva as organizações a modernizar sistemas, acelerar investigações e melhorar a rastreabilidade das decisões.
Ao mesmo tempo, o crescimento do crime financeiro colide com uma realidade operacional: backlogs, falta de perfis especializados e burnout em equipas de investigação e organismos públicos. A Gartner indica que bancos e agências estão a ser “sobrecarregados” pelo volume e sofisticação dos casos, com investigadores exaustos sob pressão para resolver rapidamente. Na prática, isto aumenta o risco de: (1) alertas mal priorizados, (2) revisões tardias e (3) evidências incompletas em revisões regulatórias.
2) De best-of-breed a plataformas 360: menos silos, mais contexto
Uma das tendências globais mais claras para a fraude digital em 2026 é a consolidação tecnológica. Os bancos querem reduzir o número de fornecedores AML para simplificar o stack, e o mercado avança para plataformas “holísticas” que integrem AML com fraude (FRAML). A Gartner explica que os criminosos exploram lacunas entre sistemas isolados e que, quando os dados ficam em silos, perde-se a “visão global”, dificultando a deteção de esquemas complexos (como redes de mulas ou identidades sintéticas).
A implicação prática é estratégica: uma defesa 360 não é “mais uma ferramenta”, mas a capacidade de correlacionar sinais (identidade, comportamento, dispositivo, transação, risco geográfico, listas, casos anteriores) para tomar decisões consistentes e auditáveis.
3) IA, agentes e compliance machine-to-machine
A automação deixará de ser apenas “assistência”. A Gartner assume que, até 2030, 70% dos casos AML serão investigados, reportados e geridos através de interações machine-to-machine entre agentes de IA de bancos e reguladores. Embora este seja um horizonte de 2030, ele impulsiona decisões já em 2026: padronizar dados, reforçar a explicabilidade e desenhar controlos que possam ser medidos, reportados e defendidos.
Em paralelo, a Gartner aponta tensões na adoção de GenAI: bancos e reguladores avançam com maior cautela (explicabilidade, precisão, resiliência), enquanto o crime financeiro acelera. O resultado é que os programas mais sólidos serão os que avançarem com IA, mas com governação, evidências e métricas robustas.
4) A exigência-chave: monitorização contínua e KRIs ligados ao risco real
Uma diferença crítica entre programas maduros e reativos é o “timing” do controlo. A Gartner alerta que, sem monitorização contínua integrada na supervisão de segunda linha, as organizações perdem visibilidade em tempo real para detetar ameaças emergentes e demonstrar diligência proativa aos reguladores.
A recomendação operacional é construir um programa dinâmico com KRIs diretamente ligados aos principais riscos, oferecendo uma leitura contínua do cenário de fraude. Na prática, a mudança é passar de “cumprimos o processo” para “podemos demonstrar o controlo”, com sinais como: evolução do risco (sobe/desce/estável), eficácia dos controlos e rastreabilidade das decisões.
5) O que CISOs, Compliance e Risk Officers devem priorizar em 2026
Se o objetivo é estar “regulator-ready” para a fraude digital em 2026, a Gartner resume quatro linhas de ação alinhadas com o que os reguladores esperam de organizações resilientes: compromisso visível da liderança, avaliações dinâmicas, formação baseada em risco e monitorização contínua com KRIs.
Traduzido para um roadmap prático de 90–180 dias, isto implica normalmente:
- Unificar o mapa de riscos (fraude + AML + KYC) e documentar cenários priorizados (mulas, identidades sintéticas, ATO, fraude documental).
- Reduzir silos: garantir que identidade, transação e caso partilham um identificador e histórico comuns (para investigação e auditoria).
- Definir KRIs acionáveis (não apenas “número de alertas”): sinais que indiquem a direção do risco e a qualidade do controlo.
- Evidências prontas para auditoria: decisões explicáveis, logs consistentes e reporting que não dependa de reconstruções manuais.
Porque a pergunta decisiva em 2026 não será “temos controlos?”, mas: o nosso modelo avisa quando o risco muda ou apenas o confirma quando já é tarde demais?