Por Miguel Santos Luparelli Mathieu, Diretor de Inovação de Produto
Se a primeira parte do Radar 2026 teve foco nas infraestruturas, esta segunda parte destaca como e onde as decisões de confiança são tomadas. A inteligência passa progressivamente para o dispositivo, o contexto e o comportamento do usuário, redefinindo a forma como a segurança digital é construída.
Nesta segunda parte, exploramos como essas capacidades avançadas de IA transformarão o design das aplicações financeiras, o compliance regulatório e a relação entre pessoas, dispositivos e sistemas inteligentes.
IA física e descentralização: a inteligência vai para o dispositivo
A IA física — isto é, dotar os dispositivos da capacidade de perceber o contexto e o ambiente — combinada com a descentralização da coleta, do processamento e da tomada de decisão no próprio dispositivo, moldará o design das aplicações financeiras em 2026.
Conceitos como Device Intelligence, Contextual Awareness e Passive Behavioural Biometrics se consolidarão como blocos fundamentais de sinais que a IA física utilizará para avaliar continuamente a identidade durante o cadastro, a autenticação e as transações.
Os wallets podem atuar como:
- uma camada externa de confiança em aplicações setoriais independentes,
- ou uma fonte interna de inteligência integrada às aplicações financeiras.
Além disso, espera-se que a IA agêntica embarcada acompanhe o usuário ao longo de toda a jornada: guiando processos, reforçando a segurança e oferecendo recomendações, sem adicionar fricção.
Impacto-chave
- Biometria comportamental
- Inteligência de dispositivo e contexto
- IA agêntica
Sistemas AI-native e experiência do usuário adaptativa
As aplicações AI-native, projetadas desde a origem com a IA como funcionalidade central, e os AI Agents desenvolvidos para tarefas específicas e integrados em uma IA agêntica para tomada de decisão autônoma, foram os principais motores de inovação em 2025 e definirão a experiência digital em 2026.
O design das aplicações será simplificado:
- menos telas,
- menos fricção,
- interações mais intuitivas.
A IA apoiará a verificação de documentos, recomendará o uso de credenciais verificáveis, validará atributos de identidade e gerará narrativas automáticas para SARs (Suspicious Account Reports) e STRs (Suspicious Transaction Reports), fortalecendo o compliance e reduzindo as taxas de abandono.
Impacto-chave
- Verificação e autenticação de identidade
- IA agêntica
- KYC, pKYC e screening
- Automação de SARs e STRs
Bonus Track: além de 2026
World Models: duas abordagens para a inteligência artificial
O futuro da IA está sendo moldado hoje por duas abordagens distintas.
De um lado, os Large Language Models (LLMs), treinados principalmente com linguagem, destacam-se pela resposta imediata. Seguindo a tese de Daniel Kahneman, representam o “pensamento rápido”.
De outro, pesquisadores como Yan LeCun defendem o desenvolvimento dos World Models: sistemas que aprendem a partir de dados de vídeo e espaciais para compreender o mundo. Essa mudança de paradigma permitiria às máquinas alcançar uma “inteligência em nível humano”, compreender a realidade e, segundo a visão de LeCun, representar o verdadeiro caminho rumo à Inteligência Artificial Geral (AGI).
Impacto
- Personalização de KYC
- Automação de SARs e STRs
- pKYC adaptativo
Analítica quântica
A analítica quântica abre novas possibilidades para a detecção de fraudes ao explorar princípios como superposição e entrelaçamento, especialmente em modelos baseados em dados categóricos e relações complexas difíceis de identificar com a computação tradicional.
Por exemplo, no modelamento de risco, uma instituição financeira que busca detectar fraude em transações pode utilizar algoritmos quânticos para o pré-processamento de dados, revelando relações ocultas entre variáveis e permitindo que a computação tradicional identifique padrões de fraude com maior eficácia.
Impacto
- Monitoramento de transações
- Classificação de contas (Know Your Account)
Consumo energético da IA
O consumo energético da IA — especialmente da IA agêntica — será um fator estratégico. A energia nuclear está moldando o futuro do fornecimento energético necessário para sustentar tanto o treinamento quanto a inferência da IA generativa e de seus derivados mais impactantes: os agentes.
Os Domain-Specific Language Models terão um papel fundamental na eficiência e na escalabilidade.
Impacto
- IA agêntica
O futuro da identidade digital será contextual, contínuo e profundamente integrado à experiência do usuário.
Além de 2026, a vantagem competitiva não estará em adicionar mais controles, mas em tomar melhores decisões de confiança com menos intervenção do usuário. As organizações que investirem em uma identidade inteligente, ética e energeticamente sustentável estarão mais bem preparadas para enfrentar a próxima década de fraude, regulação e economia digital.