Análise

Inclusão financeira no México (2026): panorama e alavancas digitais

Publicado: 17 de março de 2026 Atualizado: 5 de agosto de 2026 15 min
Mayte Hernández Especialista en Contenidos y Comunicación

A inclusão financeira no México tornou-se uma prioridade de política pública e um campo fértil para a inovação fintech. O objetivo é garantir que mais pessoas tenham acesso a produtos financeiros formais, utilizem serviços digitais com segurança e melhorem seu bem-estar financeiro. A seguir, apresentamos um panorama atualizado que integra os resultados da Pesquisa Nacional de Inclusão Financeira (ENIF 2024), relatórios de órgãos públicos e empresas, e contextualiza o papel desempenhado pelas fintechs, carteiras digitais, neobancos, trilhos de pagamento e a regulamentação.

Panorama da inclusão financeira no México (ENIF 2024)

A ENIF 2024, elaborada pelo INEGI e pela Comissão Nacional Bancária e de Valores (CNBV), revela avanços expressivos, mas também lacunas persistentes:

  • Posse de produtos financeiros: cerca de oito em cada dez adultos mexicanos (de 18 a 70 anos) possuem ao menos um produto financeiro formal. A posse cresceu em todas as regiões; o maior avanço foi registrado no centro-sul e leste do país, com aumento de 14 pontos percentuais.
  • Lacunas de gênero: a posse de produtos continua desigual. Em 2024, 72,8% das mulheres tinham algum produto financeiro formal, contra 80,9% dos homens. Para contas de poupança, a diferença persiste: 58,6% das mulheres e 68% dos homens possuíram uma conta formal.
  • Contas de depósito: 63% da população de 18 a 70 anos tinha ao menos uma conta de poupança formal, 18,9 pontos percentuais a mais do que em 2015. A conta salário segue sendo o produto mais comum.
  • Crédito formal: apenas 37,3% da população tinha acesso a crédito formal; a taxa das mulheres é de 18,3%, frente a 28,2% dos homens. Isso evidencia que o acesso ao financiamento ainda é restrito para muitas pessoas, especialmente mulheres e moradores de zonas rurais.
  • Uso de canais financeiros: 77,6% da população utilizou algum canal financeiro em 2024 — agências, caixas eletrônicos ou correspondentes —, mas apenas 10% dos adultos com conta de poupança formal a contrataram via internet ou aplicativo móvel. O uso de aplicativos bancários para consultas e movimentações cresceu de 54,3% em 2021 para 69,1% em 2024.
  • Poupança e bem-estar financeiro: 36,6% das pessoas poupavam apenas de forma informal, 8,2% exclusivamente por meio de contas formais e 21,6% combinavam as duas modalidades. O percentual de pessoas sem nenhum tipo de poupança caiu de 39,8% em 2021 para 33,6% em 2024.

Resumo dos principais indicadores (ENIF 2024)

IndicadorDado ENIF 2024
População com ao menos um produto financeiro formal~80% dos adultos
Pessoas com conta de poupança formal63%
Pessoas com crédito formal37,3%
Posse de produtos: mulheres x homens72,8% (mulheres) x 80,9% (homens)
Uso de apps para movimentações em conta69,1% dos correntistas
Poupança exclusivamente informal36,6%

Os avanços na posse de produtos foram acompanhados por maior digitalização. 83,1% das pessoas com 6 anos ou mais usam internet; nas áreas urbanas, a penetração é de 86,9%, enquanto nas rurais chega a 68,5%, refletindo uma lacuna digital de 18,4 pontos percentuais.

Fintechs no México: papel na inclusão financeira e marco regulatório

Um ecossistema em expansão

O setor fintech mexicano é um dos mais dinâmicos da América Latina. Segundo relatório da associação empresarial FinTech México, ao final de 2025 operavam 795 fintechs locais, com mais da metade focada em pagamentos digitais e crédito. Desde a promulgação da Lei para Regular as Instituições de Tecnologia Financeira (Lei Fintech) em março de 2018, foram autorizadas 89 instituições de tecnologia financeira. A lei regula três categorias: instituições de fundos de pagamento eletrônico (carteiras digitais), empresas de financiamento coletivo e “modelos inovadores” que operam em um sandbox regulatório. A norma obriga essas entidades a implementar esquemas robustos de identificação digital, prevenção à lavagem de dinheiro e proteção ao consumidor.

O crescimento do ecossistema fintech atraiu investimentos e talentos. O número de empresas mais que dobrou desde 2019, quando operavam 394 fintechs; em 2023, esse número havia subido para 650. Plataformas de crédito digital como a Konfío desembolsaram mais de 17 bilhões de pesos em 2024–2025 para apoiar cerca de 80 mil pequenas e médias empresas. Esse financiamento utiliza algoritmos para avaliar riscos e conceder crédito rapidamente, reduzindo o prazo de aprovação de semanas para minutos.

Avanços e desafios

A ENIF 2024 confirma que a digitalização está ampliando o acesso: 63% dos adultos possuem conta de poupança formal e 15,7% têm cartão de crédito. No entanto, o uso de dinheiro em espécie ainda é dominante: 85,2% dos adultos utilizam o dinheiro físico como principal meio de pagamento em compras abaixo de 500 pesos. Somente 45,5% das pessoas consideram que a maioria dos estabelecimentos onde compram aceita pagamentos por transferência ou cartão.

A CNBV e a Secretaria da Fazenda impulsionam o open banking e o uso de ferramentas de identidade digital para melhorar a experiência do usuário e reduzir fraudes. Órgãos como a Associação de Bancos do México (ABM) enfatizam que a educação financeira e a cibersegurança são pilares de sua visão para 2030.

Carteiras digitais, pagamentos digitais e trilhos nacionais (CoDi / DiMo)

Carteiras digitais e meios de pagamento

O uso de carteiras digitais no México cresce em ritmo acelerado. Uma reportagem do El Economista publicada em fevereiro de 2026 afirma que mais de 50% dos usuários de celulares já utilizam carteiras digitais como meio de pagamento. Essas ferramentas permitem pagamentos rápidos via smartphone, reduzem a dependência do dinheiro em espécie e melhoram a rastreabilidade das transações. A consultoria Research And Markets estima que o mercado de cartões pré-pagos e carteiras digitais no México crescerá a uma taxa anual de 14,3%, e que entre 2020 e 2024 registrou uma taxa de crescimento anual composta de 17,9%. As carteiras digitais já representam cerca de 28% do valor do comércio eletrônico nacional.

Além de facilitar pagamentos cotidianos, as carteiras digitais agilizam o recebimento de remessas, um mercado que movimenta mais de 66 bilhões de dólares por ano. Para a população sub-bancarizada, essas ferramentas permitem receber dinheiro e realizar transações sem a necessidade de histórico de crédito.

CoDi e DiMo: trilhos de pagamento instantâneo

O Cobro Digital (CoDi) é um sistema de pagamentos eletrônicos instantâneos desenvolvido pelo Banco do México. Funciona sobre o Sistema de Pagamentos Eletrônicos Interbancarios (SPEI) e utiliza códigos QR; para usá-lo, os usuários precisam ter uma conta bancária e se cadastrar no aplicativo de sua instituição. Ao ser lançado em 2019, a meta era atingir 18 milhões de usuários em um ano, mas seis anos depois o avanço é limitado: em setembro de 2025, havia 21,8 milhões de contas validadas e apenas 17,8 milhões de operações acumuladas. O valor total transacionado em seis anos chegou a 16,72 bilhões de pesos (média de 875 pesos por operação). A baixa adesão se deve, em parte, à preferência de usuários e comércios por outros trilhos como o SPEI, e ao fato de os bancos não promoverem o CoDi por ele não gerar comissões.

Para simplificar ainda mais os pagamentos, o Banco do México lançou em 2023 o Dinéro Móvil (DiMo). Diferente do CoDi, o DiMo permite enviar dinheiro apenas com o número de telefone do destinatário, reduzindo a fricção para usuários sem acesso a códigos QR. Até junho de 2024, 9 milhões de contas DiMo haviam sido cadastradas. Apesar de a adesão inicial ser mais rápida do que a do CoDi, persistem barreiras de conhecimento e conectividade. Especialistas apontam que muitos mexicanos desconhecem essas ferramentas e que as limitações da infraestrutura móvel (3G em comunidades rurais) dificultam o processo de onboarding.

Microcréditos digitais: acesso versus risco

O crédito digital consolidou-se como ferramenta essencial para cobrir despesas imprevistas e financiar pequenos negócios. Plataformas como Konfío, Kueski, Tala e fintechs internacionais concedem empréstimos rápidos por meio de algoritmos de risco. De acordo com a ENIF 2024, apenas 15,7% dos adultos possuem cartão de crédito e, diante de um imprevisto financeiro, muitas pessoas recorrem a alternativas digitais. A imprensa especializada reporta que três em cada dez mexicanos que enfrentam um mês financeiramente difícil usam aplicativos de empréstimo para resolver a situação. Esses dados refletem que a ausência de poupança formal impulsiona a demanda por microcréditos digitais.

A digitalização traz vantagens claras: os empréstimos são aprovados em minutos e o uso de dados alternativos (pagamentos de contas, atividade em redes sociais) permite conceder crédito a pessoas sem histórico financeiro. Além disso, a inteligência artificial reduz em até 25% as taxas de inadimplência. No entanto, existem riscos importantes:

  • Taxas de juros elevadas e endividamento. Por não serem regulados como os bancos tradicionais, alguns credores aplicam taxas elevadas. Consumidores de baixa renda podem cair em espirais de endividamento.
  • Fraudes e roubo de identidade. A ABM e a Secretaria da Fazenda apontam que os principais riscos dos serviços financeiros digitais incluem fraude eletrônica, roubo de identidade e desconhecimento das tarifas cobradas.
  • Educação financeira. Muitas pessoas não entendem como esses produtos funcionam, não comparam custos nem condições e não sabem como registrar reclações. O acesso sem orientação adequada pode aumentar a vulnerabilidade dos usuários.

Para mitigar esses riscos, é essencial fortalecer a fiscalização das plataformas de crédito, exigir transparência nas condições contratuais e promover programas de educação financeira que permitam aos usuários tomar decisões informadas.

Neobancos no México e o que estão viabilizando

Os neobancos são instituições financeiras nativas digitais que oferecem contas sem tarifas, cartões e empréstimos por meio de aplicativos móveis. Sua operação costuma ser ágil e centrada na experiência do usuário, tornando-os atores-chave da inclusão financeira.

Segundo reportagem do El CEO, o México apresenta defasagem em bancarização: apenas 46% das pessoas com 15 anos ou mais possuem conta bancária, bem abaixo da média mundial de 76%. Essa lacuna impulsionou o crescimento dos neobancos. De acordo com a BBC, existem mais de 312 neobancos no mundo e 23% deles atuam na América Latina. No México, diversas alternativas estão em operação:

  • Nu México (Nubank): o neobanco brasileiro registrou crescimento acelerado. Em 2025, contava com cerca de 12 milhões de clientes no México, oferecendo contas de poupança com rendimentos competitivos e cartões de crédito com requisitos flexíveis. Seu modelo de cartões com garantia permite que usuários sem histórico construídoão um perfil de crédito, contribuindo para a inclusão financeira.
  • Hey Banco: braço digital do Banregio, com aproximadamente 508 mil usuários em 2025. Oferece contas para pessoas físicas e empresas com rendimentos atrativos, permite enviar dinheiro aos Estados Unidos e adicionou produtos como seguros e fundos de investimento.
  • Outros players como Klar e Stori também competem com contas sem tarifas e cartões de crédito acessíveis, buscando ampliar sua base de usuários com respaldo na Lei Fintech e em licenças bancárias.

Os neobancos aproveitam a abertura regulatória para oferecer serviços personalizados, tarifas reduzidas e uma experiência 100% móvel. Com modelos baseados em análise de dados, conseguem avaliar perfis de clientes historicamente excluídos pela banca tradicional e oferecer produtos sob medida. No entanto, seu sucesso depende da manutenção de altos padrões de segurança e do cumprimento das exigências da CNBV.

Barreiras reais: confiança, fraude, adesão e experiência do usuário

Apesar dos avanços, o México enfrenta barreiras estruturais que freiam a inclusão financeira:

  1. Confiança e proteção ao consumidor. A desconfiança nas instituições financeiras e o medo da fraude eletrônica mantêm o uso do dinheiro em espécie. A ENIF mostra que o dinheiro físico continua sendo o meio de pagamento preferido de mais de 85% dos adultos em compras de baixo valor.
  2. Lacuna digital e desigualdade regional. A penetração de internet é alta nas zonas urbanas (86,9%), mas menor nas rurais (68,5%). A adesão a trilhos como CoDi e DiMo é mais lenta em comunidades com cobertura 3G e sem smartphones modernos. Persistêm também lacunas de gênero e de idade.
  3. Experiência do usuário. Muitos produtos digitais foram projetados pensando na população urbana e com conhecimentos financeiros. Especialistas apontam que CoDi e DiMo não decollam porque o processo de cadastro é complexo e os usuários preferem o SPEI ou o dinheiro físico. Melhorar a adesão exige interfaces simples, suporte a conexões de baixa velocidade e atendimento em línguas indígenas.
  4. Educação financeira. Os níveis de alfabetização financeira pouco mudaram desde 2018. Programas públicos e privados devem reforçar a formação digital e financeira, ensinar a comparar custos e a identificar fraudes. A ABM ressalta que educação financeira e cibersegurança devem andar juntas.
  5. Concorrência e regulamentação. Embora a Lei Fintech tenha criado um marco sólido, a regulamentação ainda está em evolução. A CNBV precisa equilibrar inovação, estabilidade financeira e proteção ao usuário. A concorrência com a banca tradicional também influencia; algumas instituições não promovem trilhos como o CoDi por ele não gerar comissões.

Conclusão e perspectivas

O panorama da inclusão financeira no México evidencia avanços expressivos. A maioria dos adultos já possui ao menos um produto financeiro formal, as contas de poupança estão se expandindo e os aplicativos bancários facilitam a gestão de recursos. A ascensão das fintechs, das carteiras digitais e dos neobancos oferece ferramentas capazes de integrar milhões de pessoas ao sistema financeiro. Contudo, a adesão a trilhos instantâneos como CoDi e DiMo ainda é limitada, e persistem barreiras de confiança, educação e conectividade.

Transformar esses avanços em mudança estrutural requer políticas públicas e esforços privados coordenados: continuar ampliando a cobertura de internet e telefonia móvel, promover a alfabetização financeira e digital, simplificar o processo de cadastro nos trilhos de pagamento, fortalecer a identidade digital e oferecer produtos adaptados às necessidades de mulheres, jovens e comunidades rurais. A experiência de outros países, como o sucesso do Pix no Brasil, demonstra que a obrigatoriedade de oferecer e promover sistemas de pagamento instantâneo pode acelerar a adesão. Se o México conseguir articular essas alavancas, a inclusão financeira deixará de ser uma meta e se tornará uma realidade cotidiana.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual é o atual estado da inclusão financeira no México?

De acordo com a ENIF 2024, cerca de 80% dos adultos possuem ao menos um produto financeiro formal, 63% têm uma conta de poupança formal e 37,3% possuem crédito formal. No entanto, persistem lacunas de gênero, regionais e de acesso ao crédito, e 36,6% da população ainda poupa apenas de forma informal.

Qual é o papel das fintechs no México?

As fintechs democratizam o acesso a produtos financeiros por meio de tecnologias de identificação digital, análise de dados e processos 100% online. Em 2025, 795 fintechs registradas estavam em operação, com foco principalmente em pagamentos e crédito. Plataformas como a Konfío desembolsaram bilhões de pesos em empréstimos para PMEs, e neobancos como o Nu México contam com milhões de usuários. A Lei Fintech regula sua atuação e protége os consumidores.

O que é o CoDi e como funciona?

O CoDi (Cobro Digital) é o sistema de pagamentos instantâneos do Banxico, que opera sobre o SPEI. Permite realizar cobranças e pagamentos por meio de códigos QR gerados pelo aplicativo bancário do usuário. Apesar de ter sido lançado em 2019, sua adesão é baixa: em setembro de 2025 havia 21,8 milhões de contas validadas e 17,8 milhões de operações acumuladas. Seu uso pode se expandir com a integração a carteiras digitais e ao e-commerce.

O que é o DiMo?

O DiMo (Dinéro Móvil) é um trilho de transferências instantâneas lançado em 2023 que permite enviar e receber dinheiro apenas com o número de telefone do destinatário, sem necessidade de QR. Até junho de 2024, 9 milhões de contas haviam sido cadastradas. Sua adesão ainda é incipiente e enfrenta desafios de conhecimento e cobertura móvel.

O que são neobancos e como contribuem para a inclusão financeira?

Os neobancos são instituições financeiras digitais que oferecem contas, cartões e empréstimos por meio de aplicativos móveis. No México, o Nu México possui cerca de 12 milhões de clientes e o Hey Banco conta com mais de 500 mil usuários. Esses bancos reduzem custos, oferecem produtos sem tarifas e utilizam análise de dados para conceder crédito a pessoas sem histórico financeiro.

Quais são as principais barreiras para a inclusão financeira digital?

A desconfiança nas instituições, a baixa educação financeira, a lacuna digital entre zonas urbanas e rurais, a complexidade de algumas plataformas e a persistência do dinheiro em espécie são obstáculos que freiam a adesão. Há também riscos de fraude e endividamento que demandam regulamentação mais robusta e campanhas de conscientização.

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